terça-feira, 15 de maio de 2012

Lançamento do Livro GILBERTO GIL: a poética e a política do corpo


Gilberto Gil: A Poética e a Política do Corpo, de Cássia Lopes, impõe-se como uma das mais atualizadas e definitivas leituras desse ícone da cultura brasileira, trabalho que reúne experiência acadêmica, sensibilidade analítica e compromisso político. A qualidade da abordagem justifica-se graças à nova configuração assumida pela academia na atualidade, não se limitando a apontar a excelência do trabalho de determinado autor, mas incorporando-a à imagem do intelectual, do formador de opinião e do homem público. No atual cenário das artes, é impossível descartar o modo performático como são concebidas e executadas as obras, prevalecendo os recursos cênicos e a opção pela oralidade, ao lado da atuação corporal, cotidiana e profissional dos intérpretes.
Nada mais justo do que considerar a atuação do artista ao lado da do político, uma vez que o projeto poético do compositor nunca abriu mão de seu compromisso com a estetização da vida cotidiana, da exuberância e do entusiasmo pela conjunção vanguardista entre arte e vida. O resultado da leitura assinada por Cássia, e publicada pela editora Perspectiva, é a prova mais eficaz de um labor de pesquisa que soube lidar com o arquivo musical de Gil, com sua presença na mídia televisiva, jornalística e livresca, além de se valer de sofisticada bibliografia teórica no campo da crítica cultural. Os anais da historiografia musical brasileira irão, sem dúvida, se enriquecer com a reflexão e sistematização contidas neste livro, uma das raras oportunidades de conjunção entre sensibilidade ensaística e precisão documental.
Ao leitor, é oferecido o privilégio de poder usufruir de uma reflexão que redimensiona políticas identitárias e poéticas musicais, por meio da imagem de um dos mais importantes e reconhecidos compositores de nosso tempo. Texto endereçado a um público consciente da abertura disciplinar, visto não se sentir limitado a interpretações de natureza apenas discursiva, mas voltado para questões cujo patamar alcança a altura de suas aspirações políticas e culturais.

ENEIDA MARIA DE SOUZA
Professora emérita da UFMG



O que acontece quando uma pesquisadora criteriosa e competente se debruça sobre a obra, em sentido pleno, de um dos mais completos artistas da cultura popular brasileira?        Surge um poderoso ensaio em que se misturam temas, nomenclaturas e contribuições que vão da crítica filosófica contemporânea às referências pontuais e poéticas retiradas da obra que se apresenta e discute. Tudo isto se mistura e vai além, gerando uma série de conceitos em atuação.
Comparecem ali também elementos de diversas performances, trechos de canções que então se organizam como base sutil para referências críticas bem claras. Nesse caso, basta observar sugestões, intensamente semantizadas, síntese de procedimentos poéticos como “purpurina”, “recaricaturar”, “refestança”, e dai por diante. Utilizando concepções cartográficas, a autora consegue percorrer matrizes culturais do compositor, que numa via de mão dupla passam a nos pertencer: Do sertão ao mar, de Luís Gonzaga a Dorival Caymmi, das veredas do grande sertão do Rosa (e quem dele escapa?) à Refavela, que não foge de Euclides e dos seus Sertões. Céu e Inferno passam pelas lentes da representação, com sutileza e sempre atenta à captação do gracioso trocadilho, o corpo reconsiderando, o nosso grande tecido barroco dilatado, ibericidade e africanidade misturados que nos envolvem e permeiam.
 O livro de Cássia Lopes se faz uma referência indispensável para uma travessia complexa e livre pela cultura brasileira, da tradição às vertentes mais inovadoras e em registro transformador. Sua pesquisa avança por vários segmentos da mídia, matérias jornalísticas, entrevistas e depoimentos, comparecendo nesta cena atores fortes e ativos, parceiros e dialogantes do artista.
Sorte de Gilberto Gil, a de ter encontrado tão boa intérprete, capaz de trazê-lo para nós, ainda mais vivo, intenso, uno e diverso e, sobretudo, dialogante pela graça de muitas poéticas e de seus desempenhos.

JERUSA PIRES FERREIRA
Professorado CJE/ECA/USP e do
Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/SP

sábado, 12 de novembro de 2011

Primeiro livro do DRAMATIS

Editado pela Editora da Universidade Federal da Bahia - EDUFBA,  Dramaturgia, ainda: reconfigurações e rasuras, organizado por Cleise Furtado Mendes,  é a primeira publicação do  do Grupo de Pesquisa Dramatis - Dramaturgia: mídias, teoria, crítica e criação. Criado em 2008 e sob a coordenação da professora Cleise Mendes. Estão reunidos na publicação 16 artigos de pesquisadores. A reunião dos trabalhos ressalta a interdisciplinariedade, visto que os autores pertencem a diversas áreas do conhecimento, tendo como ponto de partida a dramaturgia. Conforme Mendes (2011), "[e]ntre mortes e ressurreições, o drama, como qualquer forma artística, está exposta às intempéries de cada momento histórico, oxigenando-se com os ares do tempo. A vocação constitutiva do gênero em buscar seu alimento na mesa farta de conflitos e contradições de cada época não atinge apenas os temas, o conteúdo das obras, mas contamina a própria forma dramática, desestabilizando-a por vezes radicalmente, num arriscado que atinge os limites da auto-negação: anti-dramas e anti-peças são expressões tornadas comuns na segunda metade do século passado."

Seguindo tal pensamento, a organizadora do livro recolheu  textos que expressassam a diversidade de abordagens sobre o dramaturgia e de como ela se manifesta na contemporaneidade. Então, evidenciam-se  as estratégias dramatúrgicas que aparecem nas diversas mídias, entre elas o palco, lugar em que o drama ocupou a centralidade por um período significativo de sua história, até a crise do drama e o surgimento de outros veículos que lançam mão do recurso ficcional para dar conta do seu tempo. 

Compõem o livro Dramaturgia, ainda: reconfigurações e rasuras, os seguintes artigos:

Do texto à encenação: a expansão cênica da narrativa e sua eficácia simbólica, Antonia Pereira,

A dramaturgia do futebol: o passe de bola de Gilberto Gil, Cássia Lopes,

Canudos, a guerra do sem fim: entre drama e história, Cleise Furtado Mendes,

A partir de que fileira é possível iludir o olhar do público, Edelcio Mostaço,

Brecht e a reinvenção da fábula: compromisso e leveza, Elisa Mendes,

Cenas da Corte do Rio de Janeiro, Evelina Hoisel,

Cinema e desassossego: sentidos, sensações e sentimentos no filme noir, Guilherme Maia,

Desafios do encenador: entre atores e personagens, Hebe Alves,

Convergências, emergências (divergências) digitais, Iara Sydenstricker,

A teoria da recepção e a encenação dos dramas de língua alemã em Salvador, Luís Claudio Cajaíba,

A implosão da forma dramática no teatro de Beckett, Luiz Marfuz,

Imitação e mímesis: questões para uma leitura da Poética de Aristóteles, Marcos Barbosa,

Teatro experimental na Bahia: dramático ou pós-dramático, Raimundo Matos de Leão,

Alice através dos Neurônios-Espelho: empatia e personagens autônomos nos videogames, Renata Gomes,

Tempo e lugar em Nelson Rodrigues: um pacto cultural, Véra Dantas de Souza Motta,

Estilhaços de teatralidade na escrita textual da Revista, Vera Regina Martins Collaço.